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BERÇO D’OURO ©

Atualizado: 6 de jun.

Nunca vi o berço onde nasci

Mas sei que nele havia quentes

mantinhas de lã e imaculados lençóis

sempre bordados a ponto de ternura


Foi colocado próximo duma janela

que virava a poente. Por ela, ao fim

da tarde, entravam os mais brandos

raios da luz solar. Vinham por vontade

própria e para comigo adormecerem,

tranquilamente


De manhãzinha, pela alvorada, um

riacho saltitante e diligente teimava

em vir-me despertar.

E no alegre deslizar das suas águas

tomava por sua a missão de dar

eco ao meu inocente gargalhar


Namorando a janela sul e em seu

porte altivo lá estava a laranjeira, a

minha grande companheira. Sempre

que floria, o seu perfume inundava o

meu berço e, por sua generosidade,

inebriada se tornava a casa inteira


Ao mais leve choro de criança os

braços maternos viravam mãos de

fada, na plenitude da sua magia.

Sempre com o condão de adivinhar

se o meu choro era fome ou qual

seria a dor que chorar me fazia


Nunca vi o berço onde nasci

Mas sei que era um berço d'ouro

Pois d'ouro foi tudo o que nele vivi 

 

BERÇO D’OURO ©

Helena  Cavacas Veríssimo

20 Maio 2024

Arte: O berço, Berthe Morisot



 

 

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