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INVERNO ©

Atualizado: há 1 dia

Dá-me um tempo, dá-me um tempo, estou tão cansado

Vê como tudo em redor apela à nossa ação, e também tu,

Mãe-Natureza, precisas emergir dessa aridez que te consome

Os meus raios de Astro-Rei mais vigor não têm e a amplitude

Perderam, em breve voltaremos em toda a nossa magnitude

 

E logo em acaso programado se faz desaparecer a ocidente

 

Exaurida e assim liberada do seu compromisso amoroso

A Mâe-Natureza recolhe-se e nas noites geladas que já se

Fizeram longas entrega-se, sem culpa, ao conforto de

Lareiras aconchegantes, abafos protetores, bebidas quentes

Nada, contudo, que acuda às necessidades ora prementes

 

É lá fora que o manto providencial da intempérie já se sente

 

Eis que o céu, pesado e negro, se rasga em trombas d’água

Torrencial, gelada e revigorante a um tempo, qual sémen

Regenerador e fértil, lançado sem preliminares ou lisonjas

Saraivadas esfoliantes jorradas sem toque de meiguice

Mantos fofos e imaculados de neve cobrindo a superfície

 

Uma bênção fértil em sucessão de orgasmos descontrolados

 

E quando os dias roubam horas às noites e a saudade

Lança os seus sinais, a Mãe-Natureza sabe que é o tempo

Certo de espalhar a sua generosidade entre os demais

E, igualmente, de se reconciliar com o seu parceiro de vida

De o abraçar, feliz e orgulhosa da sua missão cumprida

 

Despedem o Inverno e avançam. Cúmplices e apaixonados

 

INVERNO ©

Helena Cavacas Veríssimo

Setembro 2018

Da Série As Quatro Estações

 

Arte: “Inverno”, Claude Monet



 

 


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